qua, 24 de abril de 2024 05:46

Pesquisador muda para Austrália e desenvolve tecnologia de combate a incêndios florestais

Sair do país para buscar mais qualificação e valorização no desenvolvimento de trabalhos e pesquisas, mas com a vontade de retornar algum dia e contribuir para que o conhecimento adquirido no exterior possa ajudar na resolução de problemas no país de origem. Não é raro encontrar pesquisadores que buscam essa saída para obter continuidade em sua formação e abraçar oportunidades fora do Brasil.

De acordo com levantamento do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, vinculado ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, o Brasil pode ter perdido cerca de 6,7 mil cientistas nos últimos anos, que foram continuar suas pesquisas no exterior.

Foi essa mesma decisão que levou o pesquisador e engenheiro Phd Douglas Pinto Sampaio Gomes, 32, a deixar o Brasil há 7 anos e se mudar para a Austrália, mais especificamente em Melbourne, onde trabalha na Victoria University.

Mato-grossense natural de Paranatinga, morou em Cuiabá por 5 anos durante a graduação, mudou-se para São Carlos (SP) para o mestrado na USP, depois deu aulas em Cacoal (RO) enquanto aguardava o visto para sair do país.

O pesquisador recorreu ao exterior para fazer doutorado, pós-doutorado e permaneceu por lá, onde atua no desenvolvimento de projetos de pesquisas na área de inovação. Douglas e sua equipe de trabalho recebem fundos do governo australiano para construir um dispositivo de redes de distribuição para diminuir o risco de incêndios na parte rural.

Anualmente a Austrália enfrenta incêndios florestais e o problema continua se agravando, causando diversas fatalidades e grandes danos ambientais e econômicos. Esse foi um dos motivos de Douglas ter conseguido a bolsa de doutorado, pois era mais aplicável ao ambiente, onde estuda as faltas elétricas por contato entre vegetação e condutores de eletricidade.

Algo que o motiva muito é que parte do bioma local, formado por áreas quentes e secas, é bem parecido com o Brasil, e sonha um dia poder trazer para a terra em que nasceu essa tecnologia para evitar, quem sabe, até mesmo incêndios no estado de Mato Grosso. Ele espera que nos próximos 3 anos consiga entregar o dispositivo a nível comercial.

A vida nas terras do cerrado
As marcas de Sol presentes nos braços até hoje não negam a passagem por Cuiabá, de 2009 a 2013. Douglas se mudou ao passar no vestibular na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e destaca que o tempo na capital foi crucial para chegar onde está hoje e parte significativa da sua formação enquanto pessoa e profissional.

“Cuiabá foi uma parte pivotal para mim. Sempre fui do interior, passei a maior parte da infância em Paranatinga, depois fiz o ensino médio em Barra do Garças, então Cuiabá foi minha primeira experiência numa cidade grande. Foi o momento de viver com responsabilidade, sozinho, num lugar onde não conhecia ninguém, o que é meio viciante, porque depois a cada dois ou 3 anos eu mudava de lugar”, complementa.

Na época, gostava de cultura americana em alguns aspectos, principalmente na música e via uma cena alternativa na capital dentre outras possibilidades que não existiam no interior. “Os primeiros anos foram de muita fascinação, porque querendo ou não, em Cuiabá tinha esse contato com o resto do mundo”, afirma.

Chegou a ter uma banda de rock com os amigos onde tocavam covers de bandas como Black Sabbath, Deep Purple e Metallica no Cavernas Bar. Lembra-se dos shows da banda Macaco Bong, algo que inclusive sente falta e descreve que ficou triste ao saber que tanto o lugar quanto a banda encerraram as atividades.

Foi na cidade calorosa também que iniciou a carreira semi profissional de jogador de poker, o que ajudou a financiar as movimentações dentro do Brasil e sua ida para a Austrália.

De mãe aposentada e pai já falecido, além da pesquisa, a intenção de ir para Melbourne também foi de ajudar a genitora com o salário que ganhava no exterior. “Uma coisa sobre mudar de país, é que você chega com sangue no olho pra trabalhar, ganhar em dólar. Na época que eu vim dava pra trabalhar, sobreviver e ajudar a família. Mesmo estando longe, é sempre bom poder ajudar”, ressalta.

Ao olhar para o passado se pergunta como alguém que nasceu no interior de Mato Grosso, hoje está na Austrália. “Ainda não sei ainda como aconteceu, mas aconteceu. Acho que o mais importante para mim em Cuiabá foi a UFMT. Ela fez um papel muito importante, jamais imaginaria que entraria em pesquisa acadêmica. A engenharia elétrica não tinha muita pesquisa na minha época, tinham poucos professores que incentivavam e lembro que uma vez um deles me deu uma bolsa. Foi o primeiro estalo para ver que era possível”, diz.

Mudança internacional

O sotaque puxado e o uso de alguns termos em inglês em meio a conversa entregam o tempo que mora fora do país de origem. Douglas comenta que, por se tratar de um país quase continental, a população fica concentrada nas bordas e o meio é um grande deserto, com bioma semelhante ao cerrado e caatinga.

A parte regional tem fazendas e pecuária, mas são cidades pequenas com povo simples, em contraste com a parte metropolitana, que possui uma concentração enorme de pessoas. Inclusive, grande parte dos habitantes da Austrália, não necessariamente nasceram por lá. “Dependendo de onde você estiver você encontra mais pessoas do mundo do que da Austrália, muita gente de fora, Croácia, Albânia, Laos, Tailândia, Índia, China, Taiwan, Sri-lanka, Vanuatu, Singapura, Irã, é multicultural”, relata.

A imigração é um dos fatores para alavancar o crescimento econômico do país, que tem índice bom de qualidade de vida e são parte significativa da máquina econômica.

Em relação a parte econômica, Douglas conta que durante a pandemia Melbourne aderiu ao lockdown e fechou tudo, o que fez com que saíssem da emergência sanitária praticamente ilesos devido ao suporte do governo. Apesar disso, a inflação ainda é sentida no custo de vida.

Dentre os choques culturais que enfrentou, relata ainda estranhar a questão da segurança. Na verdade, mora em um bairro considerado mais “complicado”, mas mesmo assim consegue andar tranquilamente de celular na mão. As casas não possuem portões e a cidade em geral é muito limpa e desenvolvida.

Para ele, a qualidade do café por lá é de se pontuar e existe muita produção de vinho. Dentre as opções para conhecer não faltam restaurantes, praias e também muitos templos budistas.

E como bom apreciador de música que é, Douglas aproveita as oportunidades que tem para ir aos shows de bandas que gosta como Tool, Queens of Stone, Ghost, Judas Priest, Slayer, e a diferentes festivais de jazz e blues.

Assim como para outros mato-grossenses e brasileiros que vivem no exterior, uma das grandes saudades de Douglas é em relação à culinária, que para ele, faz muita falta. Quando chegou ao país havia pouca opção de restaurantes de comida brasileira. Continuam poucos, mas tem aumentado, onde é possível matar saudade de feijoada e outros pratos.

Quando faz retornos ao Brasil costuma perder 2 kg antes da viagem para quando chegar comer ao máximo coxinha, bolo de cenoura, brigadeiro, pudim, peixe com farofa de banana, paçoca e refrigerante de guaraná.

Voltar? Quem sabe

Mesmo com saudade da mãe, praticamente seu único laço familiar mais forte, entendeu que não havia muito espaço para sua área no Brasil, e que a parte de pesquisa ainda encontra dificuldades, colaborações industriais, achar incentivos para fazer novas coisas principalmente na parte de tecnologia. “É sempre um desafio enorme”, diz.

Mesmo assim, acredita que deve ao Brasil essa oportunidade que teve, se sente grato e tenta colaborar e ajudar de alguma forma. Sente que tem uma dívida a ser paga um dia e não descarta a possibilidade de retornar, principalmente para trazer a bagagem que adquiriu lá fora e contribuir com o desenvolvimento do país.

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